Visitem sebos
- A.C S.M

- 3 de jun.
- 5 min de leitura
Olá, olá! Literatasss
Adivinha quem voltou? Sério, não consigo explicar a minha capacidade de sumir por MESES, achando que se passaram só alguns dias (no máximo semanas) enfim, tenho esse meu lado fraco. Não pedirei desculpas porque todos estão cientes de que farei de novo SIM.
Ao invés de perder espaço na postagem com uma carta aberta, estarei pulando direto para o que interessa. Seja bem-vindo se você é novo e, se já for da casa, puxa logo essa cadeira e pega seu balde de pipoca pra acompanhar (ou seu cafezinho, dependendo da hora)
Já adianto que, sim, eu subestimei as 220 páginas e achei ser pouco na hora que abri. Agora sei que, mais do que páginas amarelas e manchadas de poeira, não dá pra se medir a qualidade de uma leitura pela quantidade de páginas. Artigos de cinco páginas podem ser lidos em cinco semanas ou até levar um més, se assim precisar. Só não pode deixar aquele objeto passar batido!

Vou dar um contexto básico sobre do que se trata a obra de Benhard Schink, um autor alemão que eu sequer sonhava com a existência, antes de me deparar com um dos seus exemplares por um preço tentador (diga-se de passagem), em plena loja de artigos colecionáveis temáticos.
Em meados da Segunda Guerra Mundial, lá pro finalzinho, o adolescente Michael Berg conhece Hanna, uma mulher vinte anos mais velha, com quem inicia um romance marcado por novidades, entre elas a descoberta da relação sexual e da literatura. Quando Hanna desaparece de repente, o jovem acredita que nunca mais voltará a vê-la. Anos depois, os dois se reencontram. Ele, como estudante de Direito envolvido em um caso de crime de guerra; ela, no banco dos réus, acusada de atrocidades em um campo de concentração nazista. Ao reviver as lembranças da mulher que amou e o desejo de justiça, Michael descobre que Hanna guarda um segredo que ela considera mais grave que um homicídio.
Bem, acredito que, depois dessa breve introdução, posso começar ENALTECENDO a maneira que o relacionamento foi construído. Michael é assolado por uma doença que o enfraquece e ataca seu sistema imunológico, ele não pode ir pra escola, não pode ter uma rotina como uma criança da sua idade e, mesmo em estado de recuperação, a realidade da autodependência é distante. Isto é, até conhecer Hanna.
Ela desperta seu lado homem - não sei como usar outra palavra ou colocar de outra forma, peço perdão - e Michael, apenas um menino fragilizado, vê ali um interesse crescendo conforme a necessidade de vê-la aumentava a cada dia. Na primeira aparição o olhar curioso de menino já percorreu cada parte do corpo feminino, com aquele ar intrigado e juvenil. A descrição é inocente e muito bem feita, ele destaca pequenos gestos de Hanna através dos olhos atentos de Michael.
É tocante. Quando se tem uma variedade de emoções afloradas, dificilmente consegue defini-las com exatidão. Mas, de repente, quando se tem consciência de que deveria sentir e não sente nada, percebe apenas que algo está errado. Precisa estar.
Durante essa ausência de emoção, você pensa sobre isso, talvez para se sentir humano ou só porque sente falta de ter uma resposta sólida à qual se prender (spoiler: não é assim que funciona).
Um romance histórico que me afastou da mesmice. Não esperava nada durante a leitura, nunca duvidei que eu conseguiria terminar, mas achei que não mostraria nada novo (bem, adivinha quem quebrou a cara e agora está digitando só UM POST dedicado ao livro?? )
Confesso que estranhei no começo, até as palavras pareciam meio ralas e rápidas e fiquei com medo de não absorver nada. Mas foi a melancolia do passado de Michael, da sua narração cuidadosa, do arrastar do presente...Que conseguiu arrancar de mim a experiência que foi ler O Leitor.
Não há outra definição: fui experimentar uma leitura, mas a verdade é que ela transformou meu pensamento e me usou em seu experimento social. É difícil deixar a mente parada diante de tantas provocações, que te obrigam a assumir um lugar de culpa pelo Holocausto ou até a ocupar um espaço que não lhe diz respeito (até onde você sabe).
Michael Berg, um menino que sofreu de uma grave enfermidade, mas que apresentou desde o início a estrutura de um jovem amadurecido, menciona durante o tribunal que existe um entorpecimento em seu interior. Mas não é só nele que isso habita, há uma sensação de indiferença palpável no ar durante a maior parte do julgamento.
O mesmo julgamento que se mantém durante semanas, seguindo o mesmo sistema de perguntas. Elas não são necessariamente as mesmas, mas é cansativo esse roteiro. Até para o júri, para o réu e para seja lá quem mais estiver ali. Michael pontuava isso entre uma página e outra e eu quase cheguei a concordar, mas estava entretida demais.
Desde que se separou de Hanna, seus sentimentos estão bloqueados. É como se uma barreira envolvesse cada reação sua e impedisse que ela se desenvolvesse e saísse para o mundo, interrompendo qualquer emoção que ameaçasse existir.
Hanna pensava sobre o campo de concentração, embora aparentasse não sentir nada a respeito. Nada além daquele desconforto de um dever finalizado, seguido rigorosamente.
Ordens nos levam a desconsiderar nosso próprio posicionamento. Afinal, recebê-las nos afasta da simples ideia de precisar decidir. Agimos e seguimos sem pensar, além do que nossa necessidade primitiva exige: o mínimo.
Acho que aqui eu considerei que não se trata de não saber o que está fazendo, mas sim de não conseguir parar, mesmo que tudo ao seu redor aponte para isso, para que você pare. Mesmo que o "serviço" já tenha terminado, você insiste naquilo.
No entanto, essa história está longe de acabar. E, diferente das inúmeras vidas tiradas durante a Segunda Guerra Mundial, os atos de Hanna ecoam pela narrativa, atravessam o personagem — já sofrendo por suas escolhas e fantasmas passados — e chegam a parecer inesgotáveis, infinitos. Muito diferentes da indiferença mencionada por Michael.
Seja por parte dele ou do restante das pessoas, o indiferente não inibe nossa razão. Nosso pensar sempre estará lá. E esse verbo acompanha as páginas amareladas desse livro que encontrei por acaso, em um sebo com cheiro de guardado e memórias incompletas.
É um romance histórico instigante. Michael é um exemplo de menino que se desenvolveu rápido em pensamento, não só por meo de suas questões e reflexões, mas também em seu físico.
Recomendo não só pela escrita mais direta e menos detalhista, mas pelo simples fato de que as descrições contribuem para um olhar narrativo mais centrado. Como se a lente de uma câmera desse zoom naquele objeto — o crescimento de Michael — e, pela qualidade das próximas imagens, pudéssemos medir ou aguardar o desfecho.
Aqui deixo minhas considerações finais e minha ampla recomendação: leia o livro antes do filme e, assim que terminar, absorva o texto. Cada acontecimento histórico provoca um questionamento, assim como o pequeno Michael costumava se questionar.
A chave para sentir alguma coisa é nunca deixar de se perguntar. Evite se contentar somente com o real, com aquilo que pode enxergar. Fuja do óbvio (e visite sebos, claro)
"Eu ia percebendo tudo e não sentia nada."




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