Noites passam, mas você não...
- A.C S.M

- 24 de mar.
- 4 min de leitura
Olá, literatas! Hoje trago uma resenha e, sim, tenho fugido um pouco desse nicho. Adoro trabalhar na construção de novas opiniões, tecer o que penso acerca de uma obra, mas só funciona para mim com um livro que tenha uma conexão.
Meus neuronios confusos precisam sentir uma conexão com o texto e começar a fervilhar, só assim sinto que terá algo para passar para vocês. Se o livro não despertar minha razão, além da emoção, não vejo porque comentar sobre.
Agora que já me expliquei, vamos ao que interessa! Espero que estejam preparados para morrer de amores (amorres para os mais intimos. Acabei de inventar, obrigada licença poética!)
Considerado um romance clássico, Fiódor Dostoiévski atravessa não só o espaço geográfico, mas o espaço do tempo, quando, em determinado momento, decidiu escrever uma história sobre dois estranhos russos que se encontram em meados de 1848. Assim, eternizou um narrador que futuramente seria classificado como um coitado frustrado.
Bem, certo, talvez essas escolhas de palavras tenham sido duras demais. O ideal seria analisarmos a obra e absorvemos o que ela deseja nos passar (e o que passa, de fato) ao invés de nos contentarmos com o contexto geral.
Noites Brancas se passa na velha Rússia e, importante ressaltar, no início do verão, na grande São Petersburgo ou, talvez, nem tão grande assim. Considerando que o nosso protagonista, Sonhador, tem uma grande facilidade de se deparar com os mesmos rostos durante suas andanças rotineiras.
Naquela época deveria ser mais comum em meio a agitação (ou falta dela, dependendo da pessoa) encontrar familiaridade nas expressões. O Sonhador não se esquecia com facilidade de um traço, ele guardava, mas não ficava por aí e, além de se lembrar das pessoas, demonstra lê-las com muita habilidade.
Ele carrega aquele ar de homem solitário, mas que acaba não se sentindo só por conta das presenças ao seu redor. Sabia que tinha outros ali, apesar de não falar com eles necessariamente e, essa falta de diálogo, se mostrou um incômodo para ele apenas na vez em que citou o senhor do banquinho e, mesmo assim, essa possa ser a palavra errada para descrever como ele se sentiu. Não soou incomodado quando refletiu, mas sim um tanto quanto…Conformado?
Menciona que certa vez hesitaram um pouco durante uma troca de olhares, quando os dois estavam vindo de caminhos opostos e se viram frente a frente. No entanto, apenas fizeram um gesto com os chapeus e continuaram o trajeto, algo educado, mas longe de ser uma conversa real.
Cheio de estranhos, o Sonhador precisa lidar com a ausência deles quando a cidade se transforma em uma zona fantasma assim que a temporada de veraneio começa. Ali ele expõe que sentia o peso da solidão e a falta daqueles rostos.
Foi quando, em uma das suas andanças, avistou uma mulher chorando nas margens do rio, debruçada ali. Ele a olhou com curiosidade, a observando por um longo tempo de maneira inconsciente e assim avistou Natienska, só para então a conhecê-la.
Ela seria a estranha que perseguiria suas fantasias de amores, uma que conversava e escutava e amava mais do que a si mesmo. Não exagero quando digo isso, afinal, Dostoiévski trabalha o “adoecer” como uma manifestação física dos grandes sentimentos, aquela mesma frase do “morrer de amores” surge daí, dessa urgência de demonstrar como se sente, declará-lo para aliviar as dores internas.
O Sonhador está longe de ser um ouvinte passivo, sempre demonstra estar ali, sobretudo quando se dispôs a ajudá-la com suas dores passadas. Natienska tem uma história ainda em aberto com outro homem e por isso chorava tanto e, por isso, o Sonhador tenta consolá-la a cada parágrafo seguinte. A questão é que, ao fazê-lo, está deixando em último plano seus sentimentos.
Em momento algum ele negou o que sentia ou ignorou, só não mencionava da maneira que Natienska compreendesse. Ela sabia que ele cultivava algo, mas se o Sonhador pronunciasse, tornaria tudo real e, talvez, Natienska não tenha enxergado, a principio, por estar cega de amores pelo seu primeiro pretendente.
A personagem feminina carrega a esperança no peito, junto de mil e uma possibilidades de viver algo com o antigo vizinho. As expectativas a condenam a uma longa espera e, em torno disso, a forçaram a aguardar por um futuro ao lado de um homem que nem apareceria. Ela insiste e persiste, até fazer com que o Sonhador ficasse tomado até o pescoço pela situação.
O Sonhador sempre sentiu muito, ele é o que reconheço como uma figura simpatizante e repleto de empatia. Esse foi um dos erros que, mais tarde, revelou-se como…Parte da vida. Não diria um acerto, mas a frase final do livro diz tudo sobre o desfecho daquela avalanche de emoções suprimidas (OU REPRIMIDAS) por Natienska.
Eles compartilham histórias, mas em nenhum momento um nome além do de Natienska é compartilhado. Acredito que o Sonhador não tenha um nome real não por puro capricho em prol do mistério, mas sim para facilitar com que o leitor se identifique com a ideia do Sonhador. Um integrante de uma história, sem nome, torna-se de alguma forma mais fácil de se enxergar ali no lugar como um sonhador. Refletidos nas aspirações dele.
Noite Branca tem a ver com efemeridade e eu sequer pensaria por esse lado caso não tivesse ousado pesquisar, motivada pela curiosidade. Confesso que do título só consegui tirar a parte da pureza, mas as noites claras também podem ser associadas com a efemeridade dos sentimentos, a maneira como a felicidade é brutal e colore tudo, até o baque da tristeza, tão forte que às vezes assimilavamos a dor do outro.
Essa é a frase que mais gostei do livro inteiro. Todos os outros destaques apresentam sim o seu valor, mas essa é tão simples que marca bastante.
É uma leitura curta e eu recomendo pelo menos entrar em contato com ela uma vez. Não é o romance do século, mas é a história de amor mais próxima da realidade incerta.
Uma onde nem sempre precisamos sermos escolhidos para sermos felizes.
Quando estamos infelizes, sentimos mais forte a tristeza dos outros.




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