Jack e Platão
- A.C S.M

- 22 de nov. de 2025
- 6 min de leitura
Certa vez eu me peguei pensando, porquê achavam tão interessante um filme sobre um esqueleto que sequestra o Papai Noel durante uma crise de inveja, motivado pela pura falta do que fazer. A pequena eu tinha outras preferências de filme e, embora Stop Motions sempre fossem uma coisa que me agradasse esteticamente, deixavam a desejar no quesito história.
Em resumo, eram extremamente assustadores e profundamente aterrorizantes. Coraline, Frankwenweenie, O Estranho Mundo de Jack...Esses filmes nunca me agradaram, não por serem ruins, mas por eu não entendê-los, por isso eu não fazer questão deles. No entanto, tinha um carinho por Boxtrolls e Paranorman que ia além da minha compreensão.
Apesar de eu não ser a maior fã do Jack, aprendi a gostar do filme com a minha irmãzinha - completamente viciada e contaminada pelo universo do Tim Burton, principalmente quando A Noiva Cadáver está envolvido.
Agora, chega de enrolação, vamos para a pauta! Por que o Estranho Mundo de Jack está associado com o Mito da Caverna de Platão? Vamos então acompanhar essa dupla dinâmica em ação.
Estava eu com meu maravilhoso fone surrado selecionando outro audiolivro para minha viagem de duas horas pós faculdade, o BRT estava cheio, então o espaço não me permitia pegar meu livro - mal respirava. Então, decidi escutar o livro do filme, aproveitando a semana de outubro e as tendências do Halloween. O enredo é igual ao roteiro, com a diferença das narrações que, como qualquer livro, são descritivas e imersivas - a dublagem impecável também ajuda. Enfim, assim me veio a onda de ideias.
Em A República, Platão narra uma de suas mais conhecidas histórias, apresentando ao leitor um diálogo entre Sócrates e Glauco. Nesse diálogo há a teoria Platônica sobre o conhecimento da verdade e a necessidade do governante da cidade possuir esse conhecimento.
O povo muitas vezes não tem acesso, o que leva o governante a passar o saber dele ou, em certos casos, mantê-lo para si. Vai depender do governante e das suas intenções, caso veja maior vantagem em ocultar a verdade, não irá se dar ao trabalho de compartilhá-la, mas antes de adentrar nessa pauta, vamos introduzir o mito.

Primeiro contato
No texto, Sócrates comenta com Glauco e insinua uma situação, pede para que imaginasse uma caverna cheia de prisioneiros que estão lá desde sua infância. Amarrados nas paredes, eles vislumbram o movimento das sombras que são projetadas na parede na frente deles, ali ficam assistindo como meros telespectadores.
Essas sombras surgem pela fogueira, em cima de um tapume, acesa na parte traseira da parede em que os homens estão presos. Outras pessoas passam em frente a fogueira, reproduzindo movimentos, exibindo objetos, repercutindo os ecos... Resultando na única visão de mundo que aqueles prisioneiros tinham.
Repentinamente um dos prisioneiros foi liberto, ele andou pela caverna, andou tanto que achou a saída e, ao sair, se deparou com uma luz forte e incandescente, quase o cegando. O Sol, nunca antes visto, o ofusca, mas não tanto quanto a noção do mundo exterior.
Depois de um tempo ele se acostuma com aquele meio, tendo um contato maior com a luz, o cheiro e os sentidos no geral. Agora, fora da caverna, ele percebe que, os movimentos que acompanhava na parede, não passavam de meras replicas. Reproduções distorcidas de uma realidade vasta.
Aqui ele tem duas opções: o prisioneiro liberto pode retornar a caverna e tentar contar ao restante dos presos o que descobriu após libertá-los - arriscando passar por louco. Ou desfrutar da sua liberdade.
Platão trata o conhecimento de maneira hierarquica, dispondo em graus, como uma espécie de piramide de classes, em que aqueles que experimentam -, vivenciam, exploram, etc - ficam no topo, saindo de suas cavernas e, no caso do mito, os líderes. Essa metáfora aborda um modo de conhecer e de compreender o que é o mais adequado para se pensar um governante, sobretudo escolher.
Ou seja, não é só pensar em si e nas vantagens que terá em guardar ou contar, mas sim no bem coletivo, como um verdadeiro governante. A busca pelo conhecimento e pela verdade trazem o preço, quando ele percebeu que as sombras eram apenas cópias imperfeitas da realidade, o prisioneiro liberto decide voltar à caverna para compartilhar sua descoberta com seus antigos companheiros e libertá-los da ignorância. No entanto, ao retornar, seus olhos estão acostumados com a luz e ele tem dificuldade em enxergar na escuridão da caverna. Os outros prisioneiros zombam dele, acham que ele ficou louco e cego, e não acreditam em sua descrição do mundo exterior. Eles resistem à libertação e o ameaçam, preferindo permanecer em sua realidade limitada das sombras.
Para além do mito
Jack se aventurou pela floresta sombria e, ao atravessar a porta, caiu em um universo carregado de cantatas natalinas, embrulhos de presente e piscas piscas encantados. Nessa hora, tinha acabado de sair da sua caverna, cheia de teias, abóboras sorridentes e doces azedos.
O choque foi tanto que não pôde acreditar, ficou vislumbrado, fascinado até. Ao retornar, queria a todo custo entender o conceito de natal e, não só isso, como desejava espalhar o que aprendeu para todos os moradores, seu povo.
As tais correntes seriam as expectativas que o prendiam ao título de "Rei do Horror" e "Mestre dos Sustos" e, por consequência, as limitavam dentro daquele contexto. Sua realidade foi considerada por ele um obstáculo que o impedia de buscar um significado mais profundo por trás daquilo tudo.
O rei do horror, diferente do prisioneiro liberto, conseguiu trazer o tal "natal" para perto dos cidadãos, de acordo com a sua visão. Eles, diferente de Jack, nunca tinham saído da cidade assustadora. Suas bases de conhecimentos vinham do único feriado que celebravam - bem longe de balas de gengibre e árvores decoradas. O que complicou na hora de executar a confecção de presentes e itens natalinos, resultando em coisas esquisitas e macabras, condizendo com aquilo que sabiam fazer de melhor: assustar.
No entanto, isso só se transformou em um problema mais pra frente.
Enquanto isso, Jack tinha a ambição de dominar o natal, não se contentava mais com seu título e uma coisa noiva o deixou empolgado, despertando seu interesse antes adormecido, mas um interesse que ele mesmo projetou na sua mente por manifestar ideais de um natal maquiavélico que não existia. Queria mais e, por querer mais, arriscou tudo o que já tinha, inclusive coisas que nem o pertenciam, como o espirito natalino e o amor das crianças pela data, agora traumatizadas.
Ele, não só escolheu retornar, como decidiu se aprofundar e conduziu seu povo para uma reforma gritante que, ao invés de revolucionar, deturpou toda ordem, distorcendo a essência natalina. Pela história, notamos o que Platão quis passar quando mencionou que um governante tem responsabilidades na hora de transmitir conhecimento, suas escolhas pesam mais do que seu título e é de suma importância para o desenvolvimento da nação.
3. Considerações finais
A verdade é uma arma poderosa, mas resta saber se a verdade que buscamos diz sobre a gente ou remete ao próximo. Cabe refletir se a temos ou se apenas a noção dela nos aflige, Jack tinha uma noção e uma visão, mas, ao passar para os habitantes da Cidade do Halloween, não souberam o que fazer com ela, muito menos replicá-la.
Só não o trataram como louco ou ignoraram o que disse, pois enxergavam Jack com respeito, confiavam nele a ponto de enxergarem esse gesto impulsivo como revolucionário. Tamanha confiança resultou na decepção, no pânico e pavor e - claro - no sequestro do Papai Cruel.
Uma figura mítica e distorcida do bom velhinho. Jack buscou uma realidade além do que conhecia, mas, assim como o prisioneiro ao retornar, não mais enxergava a Cidade do Halloween, pois só via um projeto voltado para que conseguisse concretizar o seu natal, refém da sua ignorância e soberba até o fim.

Bom, esse foi o blog especial do dia! Não é de halloween ou de dia das bruxas, mas é uma coisa que achei interessante discutir por, justamente, não ter um motivo específico. Espero de coraçção que tenham embarcado nesse ensaio delirante.
É provável que essa reflexão possa soar batida ou até óbvia demais, mesmo assim decidi colocá-la aqui no blog e trazê-la como parte de um futuro projeto. Pensamentos pensantes ou delírios ou, quem sabe, vozes da minha cabeça? Não sei o nome, não vou oficializar ainda, mas aceito sugestões!
Talvez eu consiga botá-lo pra frente, torçam para eu ter mais reflexões assim ((ou não ksks))
Beijos com sabor de doce gelado e picolé de limão. Por aqui fico e me despeço, um ótimo final de semana para todos!




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