Além de reportagem
- A.C S.M

- 7 de fev.
- 4 min de leitura
Humanidade.
Abro o blog de hoje com essa palavra, simples, mas nem um pouco quando direcionada ao ser humano, tão complexo e versátil. As pessoas são diferentes, vivem em realidades diferentes, aspiram ares também diferentes...
E, para além de uma palavra ou uma definição, humanidade foi o que eu senti transbordando das páginas de "Correspondentes"

O livro de quase 500 páginas acompanha a trajetória de 20 nomes do jornalismo, homens e mulheres de origens variadas, mas com um objetivo em comum: a notícia.
Comecei um pouco no início de 2025 e terminei só em meados de janeiro de 2026, tinha dias que eu engatava mais, movida pela curiosidade e, em certas semanas, nem olhava na cara do livro. Ás vezes a realidade, mesmo que em outras culturas, doía bastante para ser lida. Não conseguia.
Eu sou de romance, fantasia, magias! Fugir desse meio pesado e tão real que era o mundo. No entanto, reconheço a importância de sabermos e estudarmos os acontecimentos passados. Através desses relatos pude apreciar mais o como e o porque aquele evento chegou até o telespectador, tocada pelo que acontece por trás das câmeras.
Correspondentes me aproximou da realidade deles e os deixou humanos, não tão inalcançáveis. O começo da trajetória de um correspondente não é fácil, assim como o decorrer dela.
Se não me engano, Tralli chega a comentar que morou em cima de uma loja de vinhos! - a minha amante e degustadora de vinhos interior adoraria ter essa experiência, mas acredito que na prática não seja tão confortável assim.
Sempre tive uma visão limitada do que seria essa profissão, para não dizer idealizada. Hoje já reconheço que a área jornalística pode ser um tanto ingrata, mas a narrativa desses repórteres conseguiu despertar aquela sensação gostosa de que vale a pena. Não importasse o esforço, o árduo percurso, no fim você estava ali, admirando a vista e, não só registrando tudo, mas repassando para outras pessoas terem a oportunidade de conhecerem.
Compartilhar informações e atualizar a população é só uma parte do ofício. Rodrigo Alvarez explicou, próximo ao fim, que ser correspondente é você pescar uma notícia do exterior, mas pensando em como transformá-la em algo que interesse ao povo brasileiro. Por que a inflação nos Estados Unidos ou o conflito armado influencia o cidadão do nosso país? No que isso afeta? Por exemplo.
É uma questão de traduzir o que está acontecendo e trazer de uma maneira clara, uma responsabilidade tremenda, sobretudo na hora de evitar passar uma visão estereotipada daquele cenário internacional desconhecido. Qualquer um que não vive ali acreditaria no que foi dito, afinal, o correspondente tem discernimento e experiência, logo, tudo o que ele fala tem fundamento.
Os desafios que um correspondente enfrenta são diversos. As vezes não há equipamento porque a notícia aparece sem aviso, notícia boa acontece assim, pegando o profissional despreparado e é o papel dele agir mesmo sem o preparo. Lidar com surpresas e a instabilidade da rotina agitada é essencial na área, algo que me afastou um pouco da probabilidade de exercê-la, admito.
Por mais que eu queira viajar, ainda tenho minhas amarras afetivas. Dificilmente me vejo passar um ano distante da minha família e dos meus amigos, ás vezes o pessoal pode mesmo afetar nosso lado profissional nesses casos.
Há momentos em que precisamos decidir, em prol da reportagem. Decisões podem ser cruciais e até sacrificantes, considerando os riscos, mas no fim do dia eles afirmam que fariam tudo de novo, todas as escolhas, todos os anos afastados do seu país de origem...Cada vivência no exterior, preservariam na memória e voltariam no tempo sem pestanejar, mas não para fazer diferente. Isso é magnífico.
É a fala de alguém realizado profissionalmente, verdadeira e crua, com todas as imperfeições da área, sem esconder nada. Em cada relato é palpável a gratificação e a evolução de cada um dos jornalistas.
Cesar Tralli e Pedro Bial são nomes que NUNCA imaginaria terem passado pela correspondência, mas ambos falam que foi uma parte especial de suas carreiras e que serviu para aumentar sua visão de mundo. Ampliar sua bagagem e seu repertório cultural, não se limitar - como eu costumo fazer sem perceber.
Relembrei momentos críticos na história, bombardeios, vazamento de resíduos tóxicos, desastres ambientas pelo mundo...E também coisas boas, como o casamento real, a posse do Papa e, claro, situações de pura esperança em meio ao caos.
Há uma notícia sobre uma árvore de natal que me emocionou, fiz até um conto em cima dela e, outra, da Sônia Bridi, que se passava no Dia de Los Muertos. A repórter voltara para Lima depois da tragédia no Peru e parou num cemitério local, lá encontrou o pai que perdeu uma filha, abaixado próximo ao túmulo. Ele a convidou para dançar. Foi comovente ver o final do paragrafo dizendo que Sônia encerrou a reportagem dançando a dança mais triste com o pai sem filha.
São histórias assim, em meio as perdas, que mostram a fragilidade humana. Foi minha primeira leitura tão vívida, tão próxima do mundo em que vivo. Não posso dizer que detestei.
Posso até dizer que estou pronta para ler mais.
Correspondentes foi importante em vários aspectos. Me marcou.




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